A força e determinação de Ritinha, a mulher por trás do pastel de camarão mais famoso da cidade

Rainha da Praia

A força e determinação de Ritinha, a mulher por trás do pastel de camarão mais famoso da cidade 

Por Mariana Mello

Quem frequenta a praia da Barra de Maricá certamente já experimentou ou pelo menos ouviu falar desse pastel que transborda camarão. O Quiosque da Ritinha tem história e se tornou point dos maricaenses. Generosa e falante, a responsável pelo espaço cativa fregueses e faz amigos em seus mais de 30 anos de praia.

Eram 10hrs da manhã de um domingo ensolarado quando cheguei na praia para a entrevista, o quiosque já estava repleto de clientes e Ritinha no pique, cuidando de tudo. Sentamos em uma mesa com sombra, e enquanto conversávamos uma das funcionárias descascava os camarões para os pratos que são a sensação do local. 

Filha de uma família tradicional de Maricá, Rita de Cássia Cunha Bittencourt cresceu sendo apaixonada por praia, mas começou sua vida profissional ajudando a família em comércio e trabalhando na prefeitura de Maricá. Em um determinado momento, decidiu vender sanduíches naturais, mate feito por ela mesma e cervejinha na orla aos finais de semana para completar a renda; passado um tempo, sentiu que seu lugar era ali, estar na praia era o que a fazia feliz, pediu demissão da prefeitura e foi trabalhar em uma barraca chamada “O quarto crescente” na rua 4 em sociedade com uma amiga.

 Após 2 anos de parceria, em 1988, a prefeitura, na época governada por Uilton Viana, instaurou um projeto que derrubou as barracas e construiu os quiosques. Foi feito um cadastro com os trabalhadores para esta padronização e assim chegou o momento em que Ritinha decidiu ter o seu próprio espaço. Para isso, pediu ajuda ao seu pai, já que era algo caro, sr Milton da 
Silva Bittencourt vendeu um terreno para ajudar sua filha a realizar esse sonho. Sobre ele, Ritinha fala emocionada “Sou muito grata ao meu pai, sem ele não teria conseguido conquistar o que tenho hoje”. 

A qualidade da comida do quiosque fez dele referência e chama atenção pela generosidade na quantidade de camarões dos pratos oferecidos. Sobre esse diferencial, Ritinha é enfática “Acho que quando você se propõe a fazer uma coisa, precisa fazer bem. Não se pode ter “pão duragem” com comida, Deus abençoa. Como você vai vender uma coisa que a pessoa vai continuar com fome? Qual o problema de eu colocar camarão no pastel? Fui me aperfeiçoando ao longo dos anos, percebi certas coisas. Por exemplo, criança geralmente não gosta de comer tomate e cebola, aqui as crianças comem meu pastel de camarão, tenho a preocupação de bater no liquidificador” 

Para manter esta qualidade, Ritinha aposta em parcerias que já duram anos, “Encontrei uma pessoa que me fornece a massa do pastel esses anos todos, é fininha e crocante, faz toda a diferença. O rapaz que me fornece a carne de siri, trabalha comigo há 17 anos, nosso pastel de siri é sensacional, vai com a ovinha, faz muito sucesso”

A emoção toma conta quando Ritinha lembra do momento mais difícil que passou em todos esses anos de praia, “Em 2001 uma ressaca levou tudo, só restou a cozinha e um banheiro, foi um baque, imagina você ir dormir tendo um quiosque e acordar sem ele? Mas eu sou guerreira, a vida te ensina muito, lembrei do meu começo vendendo as coisas em uma barraca de lona, decidi que iria me reerguer. Como me restou a cozinha, improvisei uma barraquinha de palha de coqueiro na areia e descia com a mercadoria. Precisei me reinventar para atrair os clientes, tinha que ser melhor do que era antes, se o pastel ia com 4 camarões, passou a ir com 10, era minha forma de conquistar a freguesia. Aos poucos fui conseguindo construir uma parede aqui, outra ali, até reconstruir o quiosque”. Ainda sobre esse episódio, Ritinha lembra de quando o mar levou tudo.  “O jornal O Fluminense fez uma matéria e foi engraçado porque não sei tirar foto sem sorrir, era uma notícia triste e eu com um sorrisão na foto, mas estava tudo certo, eu sabia que iria trabalhar muito e conseguir me reerguer.” 

Com tantos anos de praia, Ritinha fala da Maricá de antigamente, “Era muito difícil quando chegava a época fria. Hoje em dia quase não temos inverno, mas antes era rigoroso. A gente precisava ‘se fazer’ no verão para poder honrar com os compromissos. E ainda assim, para dar gente na praia precisava ser um fim de semana de muito sol. Mas foi uma época boa, conseguia trabalhar e jogar meu frescobol e aproveitar mais a praia, hoje em dia a demanda é muito grande e já não consigo.”

Ritinha também fala com encantamento e amor desse trabalho na praia. “Esse mar é imprevisível, fico encantada em ver as baleias e golfinhos que aparecem de vez em quando. Teve uma vez que o mar jogou camarões para a areia e as pessoas colocavam canga como se fosse um pulsar de pesca e todo mundo conseguia pegar. Fizemos frito e foi uma delícia!”, diz.

Depois do episódio em que o mar levou tudo, Ritinha sentiu necessidade de plantar as árvores que hoje fazem sombra em seu quiosque, com exceção das casuarinas e amendoeiras. E lembra de uma situação engraçada. “Ali atrás tinham uns cactos espinhentos e uma vez um cliente amigo nosso estava bêbado e resolveu subir por ali, aí você já imagina, né? Caiu sentado e ficou todo cheio de espinhos. Colocamos em uma mesa e fomos tirando, no dia seguinte ele nem lembrava. Uma figura!”.

Simpatia em pessoa, não teve ninguém que passe por lá sem cumprimentar a rainha da praia e é com carinho que Ritinha fala de seus clientes. “Gosto de conversar e até elevar a autoestima das pessoas. Tem em gente que as vezes chega aqui meio pra baixo, eu abro um sorriso elogio a pessoa, converso e falo que tudo vai dar certo. Estou com 57 anos e para mim envelhecer é uma coisa muito boa, traz sabedoria e aprendemos a olhar mais para o próximo.” 

Esse carinho se estende a sua equipe, com muito orgulho Ritinha destaca a valorização do seu time para o sucesso do estabelecimento, “A família toda trabalha no quiosque, marido, filho, minha irmã fica no balcão, minha filha é pedagoga e mora em Curitiba, mas vem para cá me ajudar no verão e tem dom para isso. Na verdade, somos todos uma grande família, tem pessoas que trabalham comigo há 18 anos. Acredito que tenho que valorizar meu funcionário, eles me fortalecem muito, preciso deles, dependo que eles mantenham a qualidade. Quando você vê um comércio com o mesmo funcionário há muitos anos é porque o patrão é bom. Como é que você monta uma equipe legal se tem muita rotatividade? Os funcionários aqui sabem a forma que eu gosto de trabalhar, isso permite com que a gente ofereça um tratamento diferenciado aos nossos clientes, temos fregueses de anos e conhecemos o gosto das pessoas, isso cativa”, se orgulha.

O brilho nos olhos de Ritinha mostra seu amor pelo que faz, o quiosque é mais do que um trabalho, é sua razão de viver. O que a faz feliz é estar na praia, conhecendo gente e proporcionando alegria através de sua comida e atendimento. A satisfação de seus fregueses é mais valiosa do que o dinheiro. 

O desenvolvimento da cidade fez com que a clientela do quiosque aumentasse consideravelmente e pensando numa forma de dar conta dessa demanda, Ritinha tem planejado uma solução. “O quiosque está ficando pequeno para mim, precisava de um espaço maior, como a prefeitura vai padronizar os quiosques estou aguardando. Enquanto isso, vou aproveitar a barraquinha em anexo e deixar os pastéis sendo vendidos ali para que as pessoas não precisem esperar muito”.

As lições aprendidas pela praia fizeram com que Ritinha conseguisse sobreviver com relativa tranquilidade ao isolamento social gerado pela pandemia do novo coronavírus. “Fiquei 6 meses fechada, recebi o PAT (Programa de Atendimento ao Trabalhador, promovido pela prefeitura de Maricá) e a praia me ensinou a guardar um dinheirinho, preciso ser organizada. Com isso, estava com tudo pago quando tive que fechar. Fiquei chorosa porque senti muita falta, gosto muito de conversar, preciso estar aqui nessa agitação, mas aproveitei esse tempo para descansar, o principal é todos estarmos com saúde, ninguém pegou a covid e estamos retornando tomando os cuidados, usando máscara e álcool em gel”, mostrando que não abre mão da segurança de seus funcionários e clientes.

Quem visitar o Quiosque da Ritinha, além dos famosos pastéis, poderá saborear caldinho de frutos do mar, bobó de camarão, estrogonofe de camarão, talharim com camarão, anchova, petiscos, peixinho frito com guarnição, manjubinha, entre outras delícias, tudo com a paisagem da belíssima praia da Barra de Maricá.

O quiosque da Ritinha fica na rua 10 e funciona de sexta a domingo das 9h às 20h, podendo abrir eventualmente em dias da semana de muito sol. No verão esse horário pode ser estendido até as 22h e seu funcionamento acontece em mais dias da semana. 

Vale a pena a visita!

Fotos: Camilo Souza/ Mariana Mello/ Diego Zeidan

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